Um maestro de alto gabarito
Por: Luiz Alexandre Raposo
Filho de Raimundo Lima e pai de Luiz Lima, Temístocles Lima foi um dos maiores músicos de seu tempo. Infelizmente, pela falta de preservação da memória dos homens e mulheres que enalteceram o nome cidade, são escassas as informações disponíveis sobre o autor da melodia do hino vianense.
Tendo nascido e vivido, em Viana, entre o final do século 19 e as primeiras décadas do século 20, Temístocles era filho do maestro de uma das duas bandas mais gabaritadas e solicitadas da cidade, conhecida simplesmente como “banda do Piloto”, a qual era responsável pela animação musical da tradicional festa de São Benedito.
Raimundo Lima, o piloto, assim como a maioria dos profissionais de sua época, era também compositor. Segundo padre João Mohana, que iniciou sua pesquisa musical em Viana na década de 1950, uma das primeiras partituras que lhe chegou às mãos era de autoria do velho “piloto”. E qual não foi sua surpresa, — como o próprio pesquisador atesta no livro A Grande Música do Maranhão, ao deparar-se, entre as partituras colecionadas por um leproso em Alcântara, com uma magnífica marcha para orquestra, também da autoria de Raimundo Lima, intitulada Amor de Pátria.
Tudo isso leva a crer que a música pulsava forte no sangue da família Lima. Não é de se estranhar, portanto, que a veia musical paterna influenciasse sobremaneira a vocação do filho, cujo talento iria embalar sempre o estímulo cultural de uma cidade, como Viana de sua época, que cultuava a boa música.
Com o falecimento do velho piloto, não nos restaram, infelizmente, informações seguras, conduz um brilhantismo por muitos anos o já famosa “banda do piloto”, competindo de igual para igual com a banda rival, conduzida pelo também maestro Miguel Dias.
Quase os quatro instrumentos musicais estavam sob o domínio do jovem Temístocles Lima? Não se sabe ao certo, mas provavelmente não eram poucos. A cantora e compositora Dilú Mello costumava lembrar que seu primeiro professor de violino foi esse maestro de Viana.
Naquele tempo, entre os anos de 1916/1918, Oscar Argollo, pai da Dilú, residia numa fazenda onde hoje se situa o Sítio São Manoel. Era lá que, diariamente, o professor Temístocles chegava, montado a cavalo, para dar aula de violino para a jovem aspirante a musicista. O relato da cantora revela não só o talento do maestro, mas também seu desprendimento.
As lembranças da infância de Dilú Mello registradas em seu livro autobiográfico Fiz a cama na varanda revelam que o violino e o piano faziam parte da sua iniciação artística, cujo desenvolvimento fizera de Dilú uma das maiores multi-instrumentistas brasileiras. Por esse motivo ela sempre costumava enaltecer o maestro Temístocles Lima, que tanto contribuiu para o sucesso de sua carreira.
Temístocles Lima também foi professor de seu filho mais velho Raimundo (Luiz Lima), compositor e arranjador, considerado em Viana o mais talentoso de sua geração, cujo trabalho musical influenciou profundamente a música vianense nas décadas de 40 e 50 do século passado.
Entre tantas partituras do “Acervo João Mohana”, (exposto no Arquivo Público, em São Luís) encontram-se catalogadas sete composições de autoria de Temístocles Lima. São elas: uma Ladainha ao Sagrado Coração de Jesus, para vozes e orquestra; Pastores de Viana (partitura completa); uma Marcha Fúnebre, para orquestra; uma quadrilha, Amor e Flor; duas valsas, Saudade de Maroca e Santa Inês; e o belíssimo Hino Vianense, em louvor de Amâncio Queiroz.
Que ver e privilégio ouvir ou executar umas das composições de Temístocles Lima, fosse sacra ou profana, garante que a extraordinária sensibilidade desse homem consegue ultrapassar a barreira do tempo e encantar, hoje, até mesmos os ouvidos mais indiferentes.
Portanto, considerando o valor musical de sua obra, Temístocles Lima foi eleito como patrono da Cadeira nº 6 da Academia Vianense de Letras, cadeira que se torna um título de orgulho para o maestro vianense Carlos Nina Everton Cutrim.