O poeta desconhecido
Juca Gouveia (1887–1922)
Escrito por: Pollyanna Gouveia Mendonça
No silêncio do passado repousam grandes segredos. Nada como uma boa pesquisa e a leitura atenta de pistas aparentemente insignificantes para se chegar a revelações verdadeiramente surpreendentes. Assim está sendo a reconstrução da trajetória de João Carlos Gouveia, meu bisavô, pai de João Cunha Gouveia, a quem devo a conservação das peças que quebram-cabeça que agora monto com tanta satisfação. Estou adentrando nessa bruma espessa e encontrando um verdadeiro intelectual que, por ter tido um fim tão trágico, permaneceu por décadas sem ter seu merecido reconhecimento em Viana.
O poeta
João Carlos Gouveia, filho natural de Joana Ludovina de Gouveia, nasceu em Viana, no dia 4 de novembro de 1887. À rua da Santa Rita, como conta Rui de Alencar (que ruas seriam essas atualmente?). Juca, como era chamado, foi comerciante em Viana e também na localidade de Barrados, distrito do Monção. Em 7 de junho de 1916, foi nomeado para o posto de Capitão Ajudante de Ordens da 61ª Brigada de Infantaria da Guarda Nacional da Comarca de Viana e, em 31 de julho de 1919, foi nomeado para o cargo de Promotor Público, aos 31 anos de idade.
A produção literária
Entretanto, o que nos interessa é sua produção intelectual. Juca deixou ao menos um conjunto de cartas, diários pessoais, discursos que proferiu em Viana no aniversário de seu irmão, principalmente, um livro de poemas que jamais publicou. Este livro surpreende não apenas pelos versos, mas, principalmente, pelo esmero da criação que aos olhos de qualquer um iniciado em poesia, este livro destaca as influências literárias desde vianenses amantes dos livros e que tinham especial predileção pelas obras de Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Álvaro de Azevedo e William Shakespeare. Detalhe que não deixa de nos surpreender.
Juca diz o seguinte no prefácio de seu livro:
“Busquei perdidas, eis o meu livro em coligações com o fogo em público e rasgo, os versos que meu aos vinte anos guardou meu coração de uma grande lyra, cujas cordas vibravam tangidas pelos olhos de uma hydra, que amava antes do romântico ao século, sob a forma muito bonita”.
Mais adiante consta:
“Entretanto, a ferir a concretização de meu primeiro desejo, colhi-me nos pés, esbodei, todo o fulgente palácio das minhas ilusões. Transfigurado de dor, mordi e fiz minhas lágrimas. São estes versos. Em cada um de seus ramos, palpita, sangrando um pedaço do meu coração. Fi-los para as almas que, como eu, têm o espírito dilacerado pelos dardos dos desenganos. Só elas me compreenderão e só para elas escrevi”.
A dor dos 49 poemas
Ao todo são 49 poemas de autoria deste vianense. Alguns desses poemas foram publicados em jornais de São Luís, como O Estado, O Jornal do Maranhão. Há ainda 11 discursos que tratam marcadamente de assuntos republicanos e políticos como Guerra do Paraguai, A Proclamação da República e seus personagens e a ofensiva além do século XX – todos discursos de profundo rigor histórico. A vasta correspondência trocada com o intelectual Ribamar Jansen surpreende. Em 1917, por exemplo, escreveu Ribamar a meu bisavô:
“Já tive a satisfação de ler uma produção sua no ‘O Postal’. O seu espírito inteligente e bem educado soube compor uma formosa poesia que bem mostra a delicadeza da sua alma de poeta, talhada para as grandes concepções. Os seus versos são límpidos arrebatam os corações mais rudes e severos”.
A paixão do poeta
Como um bom poeta romântico, Juca teve algumas musas. Destas, destaco a moça cega, Perolina de Cunha Gouveia (Sinhá), minha bisavó, jovem viúva de destacada beleza na cidade, irmã de Maroca da Cunha. Juca e Sinhá casaram-se em 31 de julho de 1915 e desse consórcio, nasceram João Cunha Gouveia, meu avô, e Ireneu Cunha Gouveia, que morreu ainda na primeira infância.
Essa história de amor, no entanto, durou pouco. Em 10 de agosto de 1920, aos 31 anos, Perolina faleceu. Juca escreveu poemas em sua homenagem e uma comovente carta intitulada A meus filhinhos onde escreveu frases como esta:
“Ao escrever estas linhas que dor imensa me comprime a alma. Como de um momento para o outro murchou a flor mais bela do jardim da minha existência? Como desaparecer a estrela mais cintilante do firmamento de meu lar? E que farei meus filhinhos? Baixemos a fronte e resignemo-nos com a vontade de Deus e esperemos que o tempo pouco a pouco com sua mão destruidora apagará a dor que nos dilacera o coração”.
O final trágico
Pouco mais de um ano após a morte da esposa, o poeta deu fim à própria vida. Na manhã do dia 24 de junho de 1922, Juca suicidou-se aos 33 anos com um tiro de revólver no ouvido direito por razões que ainda desconhecemos. Seu acervo de cartas, seus discursos e poemas permitem que aos poucos seja possível retirar este personagem do esquecimento e dar destaque ao papel que coube à família tratar do assunto. Sua memória merece, sim, muito respeito. Sua produção intelectual merece destaque e o “acervo Juca Gouveia” ainda tem muito a mostrar e encantar os vianenses.
* Mestre e Doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense.