A história de vida pessoal do Padre Eider Furtado da Silva se entrelaça e se confunde com a própria história religiosa do povo vianense. Menino nascido no Barro Vermelho, atual Cajari, Eider chegou em Viana no ano de 1928, aos onze anos de idade. Vinha acompanhando sua irmã, a professora normalista Edith Nair, a qual passara uma temporada de três anos lecionando na vizinha cidade de Monção.
Por essa época, o pai já havia falecido. Sua mãe e os outros irmãos mudaram-se, então, para Viana, reunindo- se novamente a família nessa mesma casa, onde o Padre Eider reside até hoje. Na nova cidade concluiu o curso primário na antiga Escola Mista Estadual, após uma passagem pela Escola Proletária Vianense, instalada no prédio da Prefeitura e dirigi- da pelo professor paraense, Nicanor Azevedo. Mais tarde se tornaria aluno do famoso Instituto Dom Francisco de Paula e ainda recebe- ria aulas particulares de francês e português com o pro- motor e o juiz da cidade.
Passado esse período e sem nenhuma outra perspectiva de ampliar os estudos, pois a família não tinha condições de mandá-lo para São Luís, retornou ao Barro Vermelho, a fim de ajudar o ir- mão Benedito, no comércio. Um belo dia foi surpreendido com uma carta do Padre
Manoel Arouche, oferecendo-lhe a possibilidade de estudar no Seminário Santo Antônio, desde que não abandonasse os estudos antes do 3º ano. Proposta aceita, o jovem Eider ingressou no conceitua- do seminário em fevereiro de 1937, aos vinte anos de idade. Ali se abririam as cortinas para uma nova vida e novos horizontes.
Ordenado padre, seu primeiro trabalho foi como cooperador do Padre Arouche, aqui mesmo em Viana. O cargo incluía uma ajuda ao velho vigário de São Vicente de Férrer, Monsenhor Bráulio, tio legítimo do pároco vianense. Com a morte do Monsenhor, ocorrida em 1951, Padre Ei- der foi designado para aquela paróquia (que abrangia também a cidade de Cajapió). Foram oito anos tranquilos de pregação evangélica no seio daquelas comunidades isola- das. Obediente à santa madre igreja, sua pastoral guia- vase pelo modelo antigo: ladainhas, missas, batizados, casamentos e as tradicionais desobrigas pelos povoados. Em fevereiro de 1959, o bispo Dom Delgado ordenou sua volta com a missão de preparar, juntamente com os padres da região, a criação da diocese de Viana. Estava por vir o cálice amargo de sua maior provação. Antes da chegada festiva do primeiro bispo, Dom Hamleto de Angelis, em 1963,
aconteceria o contato revo- lucionário com a primeira equipe da AFIS (Auxiliares Femininas Internacionais): Guadalupe, Maria Stuart e Tereza. Portadoras, em Viana, dos ventos novos do Concí- lio Vaticano II e da iminente transformação da Igreja Ca- tólica, a convivência com es- sas missionárias foi transfor- madora. O próprio Padre Ei- der reconhece: “Até aquela época, eu era um sacerdote típico do interior. Não lia nada. Apenas jornais, quan- do me chegavam às mãos. Foram essas missionárias da AFIS, as responsáveis pelo meu despertar. Elas me em- prestavam livros e sugeriam determinadas leituras. Foi aí que passei a olhar o mundo e minha missão sob nova ótica.”
Veio Dom Francisco Hé- lio Campos, o 2º bispo, para reforçar e direcionar melhor ainda sua opção pelos po- bres e oprimidos. Padre Eider
percebia, a cada dia, maior sentido e mai- or dimensão na sua vocação sacerdotal. Nesse tempo foi desig- nado para a Paróquia de Matinha, onde ini- ciaria uma pastoral de compromisso e solida- riedade com o povo mais sofrido.
Entretanto, na medida em que a nova pastoral alcan- çava os camponeses da região, a atuação da igreja católica de Viana começava a incomodar os fazen-
deiros e latifundiários. O de- saparecimento prematuro de Dom Francisco, seria a dei- xa oportuna para aqueles que não viam com bons olhos a conscientização gra- dativa dos menos favoreci- dos. Em 1975, ainda em ple- na ditadura militar, “um bis- po de encomenda” foi esco- lhido para aquela diocese, que se tornara incômoda aos interesses dos mais podero- sos.
O terceiro bispo, Dom Adalberto, mostrou de pron- to para o que viera: sua pos- se, prestigiada pelo filho da terra, General Florimar Cam- pelo, não deixava nenhuma dúvida. Em pouco tempo, o conflito se instalou. Por não se dobrar aos desmandos di- tatoriais do novo e reacioná- rio pastor, Padre Eider des- lanchou uma crise nos bas- tidores da igreja vianense, a qual culminaria na sua ar- bitrária excomunhão. Perse- guido e espoliado, sofreu na
carne os dissabores só reser- vados aos verdadeiros pro- fetas de Deus: “Foi uma épo- ca terrível que tive de en- frentar sozinho. O povo, in- fluenciado pelo bispo, se voltou contra mim. Diziam que eu era um padre comu- nista. De repente me vi com- pletamente só e marginali- zado, até por aqueles a quem julgava meus amigos. As pessoas passaram a me evitar, algumas deixaram até de me cumprimentar. A fa- mília do Sr. Zezico Costa foi uma das poucas que soube me apoiar nesse período di- fícil,” confessa Padre Eider.
Depois de passado todo o vendaval e do afastamento do bispo tirano, Padre Eider reconquistou seus direitos ca- nônicos e o respeito da co- munidade, tornando-se, in- voluntariamente, uma espé- cie de memória viva da cida- de. Sua casa é ponto obriga- tório para jovens estudantes ou pesquisadores em busca de referências e informações mais seguras sobre a história do município. Coisas da ca- pacidade remediadora do tempo, só testemunhadas por aqueles que alcançam tama- nha longevidade.
Membro da Academia Vianense de Letras, onde ocu- pa a cadeira de nº 2, patro- neada pela própria irmã, Edi- th Nair Furtado da Silva, Padre Eider, hoje, do alto de seus 86 anos, pode come- morar sua vitória. A vitória de um sacerdote competente, corajoso e fiel aos princípios cristãos que nortearam sua opção de vida.