Um jornalista revolucionário
Neste mês, quando comemoramos os setenta anos de fundação do Grupo Escolar Estevam Carvalho, o nosso jornal, cumprindo seu propósito de destacar, a cada edição, um dos patronos da Academia Vianense de Letras, incubiume de biografar Estevam Carvalho, patrono da Cadeira nº 10, da qual sou titular.
Inicialmente, cumpre esclarecer que o nome oficial do Grupo Escolar, desde sua fundação, consta a grafia Estêvam, embora o nome do homenageado fosse originalmente Estévão.
O texto que se segue é o resumo de um capítulo inédito do livro sobre a história de Viana, que está em fase de pesquisa.
Estévão Rafael de Carvalho nasceu em Viana, em 1808, de família tradicional, sendo seus pais João de Carvalho Santos e Margarida Francisca de Araújo Carvalho. Ainda moço seguiu para Coimbra (Portugal), onde foi continuar seus estudos de nível superior, em Matemática e Filosofia. Era casado com dona Olivia de Jesus Soeiro de Carvalho com quem teve um filho, batizado também de Estévão Carvalho.
Neste ponto, torna-se necessário deixar bem claro aos vianenses que o Estêvão Carvalho de quem se ouve contar alguns casos familiares desabonadores de sua conduta como marido e pai, não era o velho e respeitável jornalista, mas o seu filho, que trazia o mesmo nome do pai.
Estévão Carvalho era professor, orador, parlamentar e jornalista. Foi eleito deputado à Assembleia Geral para a legislatura de 1834-1837, durante a qual teve atuação marcante, pela sua inteligência e suas intervenções irônicas e cheias de mordacidade, com propostas polêmicas que despertaram grandes discussões na Corte. Foi, também, membro destacado da Assembleia Provincial. Deixou várias contribuições literárias e jornalísticas de consideravel valor. Publicou em 1837 A Metafísica da Contabilidade Comercial e a traduziu do alemão e O poema A primavera, de Kleist.
Estévão Carvalho era um homem destemido, dotado de uma inteligência penetrante, que se destacava em todas as suas atividades, seja como jornalista, professor ou parlamentar. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e Inspetor do Tesouro Público Provincial. Atuou, também, como juiz ordinário, em sua cidade natal.
Seu nome ficou definitivamente ligado ao jornal que fundou, em 1938, O Bentevi (grafia original), que se caracterizava por sua linguagem veemente e combativa.
Para o professor e pesquisador, Sebastião Jorge, “O Bem-te-vi foi um dos jornais mais polêmicos de sua época. Era um jornal bem escrito, o que identificava a formação cultural do seu editor. Nos seus mais de três meses de atividades, deixou um rastro de inquietação, controvérsias, sendo alvo de insultos, acusações e defesas” (Jorge, Sebastião. A linguagem dos pasquins. São Luís, 1987, p.98).
Para Astolfo Serra, não há dúvida quanto à relação do Bem- te-vi com a eclosão da Balaiada: “Estévão Rafael de Carvalho foi, sim, o principal responsável intelectual da Balaiada. O seu jornal O Bentetvi deu nome aos rebeldes já que o dera à facção política a que se diziam pertencer os balaios” (Serra, Astolfo. A bal aiada. Rio de Janeiro: Bedeschi, 1946, p.248).
Nascimentos Morais Filho, que dedicou a Estevão Carvalho, não hesita em classificá-lo como gênio.
Vale a pena transcrever esta impressão de Antônio Lopes (História da imprensa no Maranhão, p.85) sobre seu ilustre conterrâneo:
“No decurso de uma existência que não passou dos trinta e oito anos Estévão Rafael havia deixado fidelidade às inclinações mais nobres na aludida série at adolescência, e persistir naquele amor ao estudo que lhe proporcionou vasto cabedal de conhecimentos em vários ramos da ciência. Dotado de extrema facilidade para aprender línguas, traduziu o latim, o grego, o francês, o inglês, o italiano, o alemão e o castelhano e sabia algo de tupi-guarani […]”
Não se pode deixar de destacar, por fim, o perfil biográfico traçado pelo seu conterrâneo, Astolfo Serra, em seu estudo sobre A balaiada, tomando sua personalidade em várias dimensões e nos fornecedo esta eloquente imagem:
“Figura muito curiosa da História política do Maranhão é, sem dúvida, a de Estêvam Rafael de Carvalho.
Conjugavam-se-lhe na personalidade predicados os mais chocantes. A austeridade impressionante de sua vida pública unia uma temperância irrequieta e combateva, atirando-se à luta de corpo a corpo, com um desprendimento político de verdadeiro quixote… Hoje, um século depois, estudando-se lhe a vida, não é possível ao historiador sincero fugir da deve de proclamar-lhe as virtudes morais e cívicas, que foram maiores do que os seus mil e muitos pecadilhos de líder do povo.”
Estévão Rafael de Carvalho faleceu em 26 de março de 1946, em São Luís, aos 38 anos de idade.
Por: Lourival Serejo