O 1º colecionador – Nascido em Viana em 1856, Raimundo de Castro Maya começou muito cedo no Rio de Janeiro com o objetivo de estudar, graduando-se em Engenharia Civil na antiga Escola Central (atual Politécnica), então de “meninos dos olhos” do imperador D. Pedro II. Pouco tempo depois, ao submeter-se a concurso na mesma escola, teria oportunidade de conhecer pessoalmente o imperador, o qual se encontrava presente à seleção. De acordo com informações contidas no livro Museus Castro Maya, “Sua majestade ficou tão impressionado com o jovem que não teve dúvidas em convidá-lo para preceptor de seus netos” (Museus Castro Maya / Vários colaboradores; Rio de Janeiro: Agir, 1994).
Desse modo, o jovem engenheiro teve oportunidade de ingressar na vida da Corte, onde conheceu sua futura esposa Theodozia Benedito Ottoni, herdeira de importante família de liberais mineiros, filha de Christiano Benedito Ottoni e sobrinha de Teófilo Ottoni, político conceituado que daria nome a uma conhecida cidade de Minas Gerais.
Christiano Benedito Ottoni gozava de grande projeção no império, tornando-se ministro e construtor da Ferrovia Pedro II (atual Central do Brasil). Raimundo de Castro Maya trabalhou com o sogro na construção da estrada de ferro, destacando-se por sua capacidade técnica e poder de liderança. Do casamento com Theodozia nasceram três meninos: Christiano, Paulo e Raimundo, tendo este último nascido em Paris, quando o vianense ocupava o cargo de vice-Cônsul do Brasil naquela cidade.
Como empresário no Rio de Janeiro, Castro Maya já havia acumulado considerável fortuna, antes de mudar-se para a Europa. Assim, rico e dono de extraordinária sensibilidade, inserido na efervescência cultural da capital francesa, não hesitaria em usar de seu poder aquisitivo para adquirir obras de arte, iniciando ali uma das maiores e mais valiosas coleções de arte francesa de propriedade de um brasileiro. Segundo o historiador e crítico de arte, Paulo Herkenhoff, Raimundo de Castro Maya “representou o que de melhor havia no interesse pela arte francesa desenvolvida por alguns brasileiros, na segunda metade do século XIX”.
O 2º colecionador – Os dois filhos mais velhos de Raimundo de Castro Maya, Christiano e Paulo, tiveram destinos trágicos, falecendo ambos ainda muito jovens. Somente Raimundo Ottoni de Castro Maya (1894–1968), o terceiro filho, teve vida longa e soube seguir os passos do pai. Bacharel em Direito, empresário e industrial, igualmente culto e refinado, além de aumentar o acervo de obras de arte herdado, tornou-se um defensor do patrimônio cultural e natural do Rio de Janeiro. Na década de 1940, a convite do então prefeito do Rio de Janeiro, Henrique Dodsworth, coordenou os trabalhos de remodelação da Floresta da Tijuca. Teve também importante atuação na fundação de museus e de instituições culturais e editou livros importantes do iconográfico carioca.
Nascido em Paris e educado no Brasil, tendo frequentado os melhores colégios do Rio de Janeiro, Raimundo Ottoni, entregue à atividade de colecionador, regressaria várias vezes à capital francesa com o propósito de selecionar e adquirir novas obras de arte para seu acervo particular, atualmente exposto nos museus do Açude e Chácara do Céu.
Os museus – Na década de 60, Raimundo Ottoni de Castro Maya, sem herdeiros e único sobrevivente da família, assinou a doação que passaria ao poder público, após sua morte, não somente a valiosíssima coleção, como inclusive os imóveis Chácara do Céu (situado no bairro Santa Teresa) e Açude (no alto da Boa Vista), ambos transformados em museus e atualmente sob a administração do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Os acervos dos referidos museus compõem-se de raras peças de arte chinesa, indiana e indo-chinesa; obras de consagrados artistas nacionais como Iberê Camargo, Antonio Bandeira, Cândido Portinari e Di Cavalcanti; magníficas pinturas a óleo, desenhos e gravuras de viajantes do século XIX, como Rugendas, Chamberlain e Taunay, destacando-se as 490 aquarelas e 61 desenhos de Jean-Baptiste Debret.
Merece especial destaque, dentre esse fabuloso conjunto artístico, a coleção de azulejos portugueses dos séculos XVII e XVIII, a grande maioria trazida do Maranhão. Sobre este acervo em particular, adquirido por Raimundo Ottoni de Castro Maya, o historiador Herkenhoff faz uma interessante reflexão: “Era como se fosse trazida dessas casas sua pele mais sensível. Trazer azulejos do Maranhão era também trazer um pedaço da casa do pai”.
Ao analisar todo o conjunto do acervo dos Castro Maya, entretanto, o mesmo Herkenhoff vai mais longe: “Sem confundirmos as marcas temporais das próprias peças colecionadas, pode-se concluir que, através desse testemunho de vida evidenciado no colecionismo, esses dois homens – pai e filho – foram capazes de viver intensamente um olhar compreensivo e atuante sobre dois séculos da cultura do Brasil. É como se tivessem vivido dois séculos.”